Obra parada e problemas de infiltração impactam na rotina do Legislativo

Fundada em 1895, a sede da Câmara de Vereadores de Santa Maria evidencia, logo na entrada, os efeitos do tempo. A fachada do prédio histórico na Rua Vale Machado aguarda revitalização, assim como a escadaria de acesso aos gabinetes parlamentares e as janelas centenárias. As obras chegaram a ser iniciadas neste ano, mas estão paralisadas. Conforme a presidência da Casa, técnicos identificaram divergências nas medições apresentadas pela empresa contratada e, desde então, a resolução do impasse é aguardada para a retomada dos trabalhos.

Obra na fachada está parada por divergências entre equipe técnica da Casa e empresa contratadaFotos: Vinicius Becker (Diário)

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Mas, os problemas não ficam na fachada. Desde o retorno das atividades legislativas, em 2026, o acesso ao prédio passou a ser feito pela garagem, ao lado da entrada principal. O trajeto alternativo até o Plenário e os gabinetes revela, porém, rachaduras nas paredes e alagamentos recorrentes. Além disso, parte da estrutura está interditada devido às obras.

Na última terça-feira (7), dia de sessão, a situação se agravou devido ao volume de chuva. Caixas de papelão foram utilizadas para conter a água acumulada, enquanto baldes tentavam dar conta das goteiras em diversos pontos do corredor. Nem a sala da Presidência, no segundo andar, foi poupada: houve alagamento, o que tornou ainda mais visíveis as fissuras nas paredes.

O Plenário, principal espaço de debates do Legislativo, também apresentou problemas. Goteiras e o carpete encharcado quase comprometeram o andamento da sessão. Um assessor parlamentar chegou a relatar que uma parte do carpete parecia dar “choque”. A preocupação com a estrutura foi compartilhada tanto por membros do gabinete quanto por servidores da Casa.


Gabinetes alagados

Os problemas estruturais do Palacete da Vale Machado, como é conhecido, tornam-se ainda mais evidentes nos gabinetes parlamentares, localizados no primeiro e no segundo andar. Nem é preciso entrar nas salas para identificar as infiltrações. Na última terça-feira, a água atingiu boa parte dos espaços. Houve, inclusive, relato de uma CPU danificada, que precisou ser substituída.

Cabos de computadores que ficaram em contato com a água são motivo de preocupação nos gabinetes

No gabinete do vereador Lorenzo Pichinin (PSDB), panos, baldes, pedaços de papelão e até vasos de plantas foram improvisados para conter as goteiras. A circulação no local estava dificultada pelos obstáculos espalhados pelo chão. Também chamavam a atenção cabos em contato com a água sob as mesas, o que gerava preocupação com o risco de curto-circuito.

Posso afirmar que o meu gabinete é o mais afetado. Não sei explicar o motivo – disse o parlamentar.

Gabinete do vereador Lorenzo Pichinin foi um dos mais afetados após fortes chuvas na semana passada


“A obra está parada, mas nós não estamos parados”, afirma presidente da Câmara

Sergio Cechin afirmou que obras são prioridade da atual gestão da Casa

Apesar da paralisação das obras de restauro da fachada e da escadaria histórica, a Câmara de Vereadores de Santa Maria afirma que atua para resolver os entraves que impedem o avanço dos trabalhos. Segundo o presidente do Legislativo, Sergio Cechin (Progressistas), a interrupção ocorreu por questões técnicas identificadas pela fiscalização da própria Casa. De acordo com ele, divergências nas medições apresentadas pela empresa contratada motivaram a suspensão temporária da obra. Diante disso, foi aberto um processo de responsabilização, que prevê prazo de 15 dias para manifestação da empresa. Paralelamente, a Câmara mantém diálogo com os responsáveis pela execução do serviço, com o objetivo de retomar os trabalhos em breve.

A obra está parada, mas nós não estamos parados. Seguimos trabalhando com a equipe técnica da Câmara, com engenheiros, arquiteto, setor administrativo, Procuradoria e chefia de gabinete, buscando soluções para que a obra avance – afirmou Cechin.

A empresa responsável pelo restauro foi contratada por meio de processo licitatório e tem sede na Bahia. Conforme o presidente, representantes da Câmara já realizaram reuniões com o proprietário, que se comprometeu a analisar os apontamentos da fiscalização e apresentar uma resposta nos próximos dias.


“Trabalhos já iniciaram”

Apesar disso, Cechin ressalta que parte dos serviços já iniciados, especialmente os relacionados à alvenaria – que inclui a recuperação de portas e janelas do prédio, que estão contempladas nesta fase da obra. A expectativa da presidência é que os trabalhos sejam retomados ainda nesta semana.

As obras começaram a ser executados. A nossa expectativa é que possamos retomar as atividades de alvenaria e também os serviços de carpintaria, como janelas, portas e escadas – disse o Cechin.

O presidente também enfatizou que, por se tratar de um prédio histórico, o restauro exige cuidados específicos. Diferentemente de uma reforma convencional, o processo busca preservar as características originais da edificação, o que demanda maior rigor técnico.

– Nós não estamos fazendo uma reforma comum, estamos restaurando o prédio. Isso significa manter as características originais, usar materiais equivalentes e respeitar a estrutura existente. Esse tipo de obra exige cuidado e atenção – destacou.


Troca do telhado

Além da fachada, a Câmara também enfrenta problemas estruturais no telhado. Segundo Cechin, a administração já iniciou a elaboração de um projeto para a substituição completa da cobertura, o que incluiria não apenas as telhas, mas também a estrutura de madeira.

– Já determinamos a elaboração de um projeto para a troca do telhado, incluindo toda a estrutura, que é antiga e apresenta desgaste. Com esse projeto em mãos, vamos abrir licitação ainda neste primeiro semestre – afirmou.


Mudança temporária foi descartada

De acordo com Cechin, a gestão não trabalha com a possibilidade de realizar as atividades legislativas em outro lugar. Ao invés disso, a prioridade, segundo ele, tem sido agilizar os trâmites administrativos para garantir a continuidade dos trabalhos sem a necessidade de transferência das atividades para uma sede temporária:

Em princípio, não pensamos em uma sede temporária. O nosso foco é superar os entraves burocráticos e dar agilidade aos processos para que as obras avancem o quanto antes.


Sede inacabada da Câmara depende de licitação

Na mesma quadra, a poucos metros da sede atual, está o prédio que deveria abrigar a nova Câmara de Vereadores. A conclusão da obra tem sido apontada como prioridade por sucessivos presidentes da Casa, mas até agora nenhum conseguiu viabilizar a retomada do projeto, iniciado em 2012 e ainda inacabado. O ex-presidente Admar Pozzobom (PSDB), que esteve à frente do Legislativo no ano passado, chegou a afirmar que essa seria uma das metas de sua gestão. “Eu disse que, se a obra não sair do papel, não colocaria o meu nome”, declarou em entrevista à época. Agora, a responsabilidade recai sobre o atual presidente, Sergio Cechin (Progressistas).

Conforme o parlamentar, a atual gestão já definiu as adaptações do projeto da nova sede, etapa considerada fundamental antes do avanço para a licitação. O documento, que deve ser apresentado até o final de abril, também vai detalhar como será a organização dos espaços, como plenário, auditório, gabinetes e a integração entre o prédio novo e a estrutura atual.

O projeto básico contempla planta baixa, cortes e toda a definição dos ambientes. Também prevê como será a ligação entre o prédio novo e o atual. A ideia é aproveitar ao máximo a estrutura já existente – explicou.

Obra inacabada da Câmara fica ao lado da sede atual, na Rua Vale Machado

Após a conclusão dessa etapa, a Câmara deve avançar para a elaboração dos projetos complementares, como o estrutural, além de estudos técnicos para avaliar as condições da obra que já está executada.

– Vamos fazer análises da estrutura existente, com apoio técnico, inclusive, para garantir que tudo esteja adequado. A partir disso, partimos para os projetos complementares e, depois, para a licitação da obra – disse.

A expectativa da presidência é de que o processo licitatório para a retomada da construção seja lançado no início do segundo semestre. Cechin reforça que a gestão tem trabalhado para que as obras tenham continuidade:

– É a prioridade número um: a restauração do prédio histórico e a retomada dessa obra que a cidade espera há tantos anos.


Histórico da construção da nova sede

  • O projeto original do novo prédio da Câmara foi orçado em R$ 4,9 milhões. Ele previa cinco andares, em área total de 3,98mil m², com 26 gabinetes de 40 m² cada. Além disso, contaria com um auditório para 400 pessoas. A obra iniciou em 2012
  • Com base na inexecução parcial da obra, a Câmara rescindiu contrato com a empresa responsável pelo serviço na época. A obra foi paralisada em 2013
  • Em 7 de junho de 2016, foi instaurado um processo administrativo de sindicância envolvendo a Câmara e a empresa. Em relatório, foram constatadas irregularidades em todas as fases da construção
  • Em 24 de novembro de 2017, a Câmara lançou licitação para contratação de empresa para elaboração do projeto para fazer paliativos
  • A empresa que foi contratada realizou os serviços. A prefeitura autorizou o pagamento, porém, solicitou que a Câmara contratasse outra empresa para realizar um estudo detalhado das fundações do prédio
  • No dia 11 de setembro de 2018, a Câmara enviou um ofício ao Executivo anexando laudos técnicos da empresa que fez as fundações do prédio, questionando se realmente era necessário a contratação de outra empresa
  • A obra é alvo de uma inspeção do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que já determinou a devolução de valores por ex-gestores, e também de ação civil por parte do Ministério Público
  • Em dezembro de 2024, a Justiça homologou o laudo, liberando o espaço para a retomada da sede inacabada
  • A promessa da atual presidência é que o projeto seja apresentado até o final de abril deste ano. Depois, a licitação deve ser lançada para definir a empresa responsável pela obra

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